É com muita alegria que a gente compartilha aqui no Blog do AGT um texto que todos nós aguardávamos com muita curiosidade.
Durante nossa jornada em Várzea Queimada, entre os dias 01 a 15 de fevereiro, tivemos a companhia do curador e crítico de design português Frederico Duarte, que veio ao Brasil para escrever dois artigos sobre o A Gente Transforma: um para a Revista Pública, a revista de domingo do jornal português Público e outro para a revista italiana Domus, uma das mais importantes publicações dedicadas à arquitetura, design e arte.
Frederico foi convidado pelo próprio Marcelo para participar da etapa Mão na Massa do AGT. Com essa iniciativa, o AGT cria novas conexões e coloca a os veículos de comunicação em uma experiência verdadeira de geração de conteúdo. É preciso viver a transformação para entender a dimensão do projeto.
Frederico contou para a equipe AGT como foi escrever sobre o AGT para o jornal português:
“Como contar tantas histórias em menos de 8000 caracteres, quando eu comecei com um texto quase duas vezes maior? Como explicar quem é o Marcelo Rosenbaum a quem não vive no Brasil, e falar de toda a equipa que ele levou ao Piauí? Como falar da partilha, da aprendizagem, do processo criativo ou da experiência espiritual destes dias? Incluir ou não uma frase sobre os potós, ou sobre a laje de betão multidisciplinar de Várzea Queimada?
Muita coisa ficou de fora, mas junto com a minha editora da Pública, tentámos contar o essencial para que os leitores da revista que não são entendidos em design, nem em Brasil, entendam a importância e influência do AGT.”
A gente reproduz a matéria aqui abaixo e ficamos aguardando o próximo artigo, para a Revista Domus, com a mesma ansiedade.
Boa leitura!
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A GENTE MUDA VÁRZEA QUEIMADA
Marcelo Rosenbaum é um designer famoso, até numa aldeia remota do estado do Piauí, onde levou um dos mais influentes projectos do design brasileiro actual. A Gente Transforma une artesãos e lugares.
Texto Frederico Duarte
Fotografia Tatiana Cardeal
Imagens das páginas da Revista Pública. (Para ler o texto aqui no Blog, siga até o fim deste post):
Quando o designer mais famoso do Brasil chegou a Várzea Queimada, uma remota povoação do também remoto estado do Piauí, foi recebido com foguetes, discursos, as chaves do município e forró. Marcelo Rosenbaum é praticamente desconhecido fora do seu país, mas mesmo no Piauí profundo não consegue andar na rua sossegado. A sua fama não vem tanto dos objectos ou interiores que projecta, mas do seu programa de televisão, onde melhora as casas e vidas dos telespectadores. Nessa noite ele começou, em Várzea Queimada, a segunda edição do A Gente Transforma (AGT), um dos mais ambiciosos e influentes projectos do design brasileiro de hoje e que também muda os lugares e as pessoas que lá vivem.
Rosenbaum não chegou sozinho. Trouxe arquitectos especialistas em permacultura, estudantes universitários, designers de produto portugueses e brasileiros, directores de arte, fotógrafos, jornalistas, uma equipa de realização e dois mestres espirituais. Os seus objectivos para as duas semanas seguintes passavam por beneficiar/ construir uma nova estrutura para a comunidade que servisse de exemplo para a construção e melhoramento de outras edificações, mas também para criar uma colecção e respectivo catálogo de produtos que possam gerar maior e melhor rendimento aos seus artesãos. E ainda um documentário e um livro com as histórias de quem chegou e de quem ficou.
Em pleno semiárido nordestino, a cinco horas de estrada de Teresina, capital do Piauí, Várzea Queimada é um povoado onde 900 pessoas — divididas entre duas famílias que incluem 47 surdos-mudos — vivem do que cultivam (quando chove), sem saneamento e com escasso acesso a água. Muitos jovens deixam a escola e partem para São Paulo à procura de trabalho, engrossando as favelas da cidade. Outros dependem de reformas ou de subsídios como o Bolsa Família. A única alternativa a esta dependência é produzir. As mulheres entrançam palha de carnaúba, uma palmeira local, e dela fazem chapéus, esteiras e outros objectos de uso comum. Os homens esculpem, a partir de borracha de pneu de camião, cópias de chinelos Havaianas que vendem na feira ou a caixeiros- viajantes que passam pela aldeia e levam o seu artesanato a toda a região.
Modernismo brasileiro útil
Marcelo Rosenbaum é conhecido não tanto pelas lojas, restaurantes e apartamentos onde conjuga, de forma tão extravagante quanto sofisticada, elementos da cultura urbana com clássicos do modernismo ou referências do imaginário popular brasileiro. Nem pelas suas linhas de produto e mobiliário. É famoso por causa de Lar Doce Lar, a rubrica mensal do programa O Caldeirão do Huck (Rede Globo) e uma espécie de Querido Mudei a Casa adaptado à escala, população e emoção brasileiras. E como a televisão chega a 99,5% dos 190 milhões de brasileiros, ele é visto por muita gente.
Rosenbaum tem empregue a sua popularidade em projectos que apelida de “design útil”. Um deles é AGT, estreado em 2010 no Parque Santo Antônio em São Paulo, onde foi dada uma nova cara ao entorno do único espaço de lazer da favela — o campo de futebol — com a ajuda de universitários, patrocinadores e media. Impressionado com os resultados, o Ministério da Integração Nacional convidou-o a levar o projecto à Chapada do Araripe, uma área dividida entre os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí com um dos piores índices de desenvolvimento humano do Brasil. Com o aval do governo local e a participação da Agência de Apoio ao Empreendedor e Pequeno Empresário, que promoveu já muitos projectos de colaboração entre designers e artesãos, a Várzea Queimada foi escolhida pelo potencial dos seus artesãos.
Artesanato à sombra
Ali, e durante duas semanas, os arquitectos Henrique Pinheiro e Tomaz Lotufo e 18 estudantes conceberam e construíram uma casa dos artesãos, no que foi um processo colaborativo com a população local no projecto e na prática. Uma lavandaria abandonada deu lugar a dois edifícios, construídos em terreno público segundo critérios da permacultura — como adaptação ao relevo, (re)utilização de materiais locais, estruturas de sombra ou ventilação natural. Ergueram-se uma cisterna e açudes para reter as águas da chuva. Plantaram-se árvores, um coreto e um parque infantil. Chegada à madrugada do último dia do projecto, dia 15 de Fevereiro, nem tudo estava pronto, mas o futuro da casa, bem como do trabalho que será feito no seu interior, à comunidade pertence.
Na igreja da aldeia, os portugueses Pedro Ferreira e Rita João coordenaram o grupo de artesãs da palha. Na borracharia, do outro lado da rua, a designer de jóias piauiense Kalina Rameiro trabalhou com os artesãos da borracha. O resultado foi uma colecção de cerca de 30 peças destinadas ao mercado brasileiro da decoração. Esta não é, porém, uma colecção “assinada” por designers de fora e produzida por artesãos locais. Aqui, os designers foram os catalisadores de um processo de manufactura já encetado pelos artesãos: definiram com eles processos de construção, técnicas de manuseio e optimizaram a produção, mas também ampliaram a sua imaginação ao criar objectos utilitários e decorativos com novas dimensões, formas e acabamentos. Por fim, trabalharam a “artesania”, neologismo do ceramista brasileiro Gilberto Paim — “um grau alto de atenção ao detalhe e de cuidado na execução, oriundos de um senso peculiar de orgulho no trabalho, do prazer em fazer bem feito”. Objectivo: incutir nos artesãos a ambição de atingir novos mercados através da valorização do seu trabalho.
Próxima etapa: transformar o mercado, na segunda fase do AGT — apresentar a colecção em Abril durante o Salão Internacional do Móvel de Milão. Tendo como parceiro o gigante editorial Grupo Abril, Marcelo Rosenbaum quer que a mostra do AGT no mais importante evento de design do mundo acelere o reconhecimento e valorização do artesanato brasileiro no seu próprio país.
Outros nomes importantes do design brasileiro, como a curadora Adélia Borges (que acaba de publicar Design + Artesanato – o Caminho Brasileiro), têm defendido uma maior união entre o design e o artesanato como forma de projectar bens, mas também serviços e sistemas mais adequados aos recursos naturais, às realidades humanas e ao património cultural do seu país.
Sendo o Brasil o 5.o maior mercado interno do mundo, esta é a altura certa para mudar as expectativas que os brasileiros têm dos designers e produtores dos seus bens de consumo, sejam eles pequenas comunidades de artesãos ou grandes marcas e indústrias.
Ao “colocar uma lente de aumento sobre Várzea Queimada”, Rosenbaum quer mostrar o talento e o potencial para produzir e criar riqueza dos brasileiros, mesmo em povoações remotas. Quer usar o design como ferramenta de negócio e assume: “A gente não vai fazer milagre.” Mas acredita que o impacto deste AGT será sentido em Várzea Queimada ao longo dos próximos 30 anos.
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Frederico Duarte estudou design de comunicação e trabalhou como designer gráfico em Portugal, Malásia e Itália. Em 2010 concluiu o mestrado em crítica de design na School of Visual Arts em Nova Iorque. Entretanto, integrou durante vários anos a equipa da Experimentadesign (a bienal de design de Lisboa) e desde 2006 tem trabalhado como autor, crítico e curador de design independente. Como tal, tem escrito artigos e ensaios, contribuído para livros e catálogos, dado palestras e workshops, comissariado exposições e organizado eventos sobre design, arquitetura e criatividade.
http://www.05031979.net/
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Esta é a segunda edição do projeto A Gente Transforma (AGT), criado pelo designer Marcelo Rosenbaum. O objetivo é ampliar e qualificar a produção artesanal, torná-la parte da decoração brasileira, contribuindo para a valorização de peças de ‘design de raiz’.
Em 2012, o projeto acontece em Várzea Queimada (PI), localizada em uma das regiões mais pobres do Brasil. Com a missão de gerar novas oportunidades econômicas e melhorar a qualidade de vida, o AGT vai atuar em dois eixos principais: (1) a produção de artesanato de qualidade para o mercado de decoração brasileiro e (2) a construção de um espaço comunitário, usando soluções de permacultura, que servirá para atividades ligadas ao artesanato e também como espaço de lazer.
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